Mentes inquietas
Livro explica o Distúrbio do Déficit de Atenção
Luciana Mendonça - 6/3/2005

 

Quem não se lembra de algum colega de sala que era famoso por ser distraído, hiperativo ou impulsivo? Há 20 anos, estas crianças e adolescentes eram tratados apenas como pessoas indisciplinadas, que precisavam de boas palmadas e uma educação mais rígida para se adaptar aos padrões de comportamento normal ditados pela sociedade. Hoje, estudos psiquiátricos indicam que tais comportamentos são sintomas do chamado Distúrbio do Déficit de Atenção (DDA) que acomete homens, mulheres e crianças.

Ao receber a divulgação do livro Mentes Inquietas – Entendendo Melhor o Mundo das Pessoas Distraídas, Impulsivas e Hiperativas, particularmente gostaria que o tivessem lançado quando meu irmão entrou na escola, em 1984, já que desde este período e enquanto durou sua vida escolar, sempre foi visto como um aluno que não teria futuro. Uma pessoa que mal tinha começado a vida e já havia sido diagnosticado como um “doente terminal da sociedade”!

Lançado pela Editora Gente, o livro apresenta o DDA ao leitor de forma simples, clara e objetiva. Na obra, dividida em 16 capítulos, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva explica o que é o distúrbio, como se manifesta em mulheres e crianças, além das situações que envolvem a vida afetiva, o mercado de trabalho, o uso de drogas e o tratamento.

Segundo a autora, o objetivo do livro é mostrar que os DDAs podem viver melhor, tendo mais consciência do que é o distúrbio e também ajudar seus filhos, irmãos e amigos a entender que apesar das particularidades no comportamento, eles possuem um grande potencial.

Eu acrescentaria neste leque de pessoas, profissionais da área de educação – diretores, professores, coordenadores pedagógicos, espetores – e todos aqueles que costumam desacreditar naqueles que apresentam tais comportamentos, preferindo os castigos e as suspensões. Aliás, esta última é ótima porque torna possível livrarem-se dos problemas por alguns dias! Antes da punição, que tal tentar entender os motivos de tais comportamentos?

Segundo William Lara, “educar, desde os primeiros dias até os últimos, é deixar os outros serem humanos. O que é a educação? Com base em que a educação ganha seu sentido, sua pertinência, sua vitalidade e seu caráter decisivo? A resposta é simples: educar é deixar surgir o homem e suas possibilidades. Na educação, o essencial não é o assunto ou o conteúdo, mas a perspectiva, o modo e a relação. Ou, antes, o objeto da educação não é um tema, como, por exemplo, a Geografia, a História, a Matemática, a Literatura ou as Artes Plásticas. Aquilo sobre o que a educação recai é um modo de ser, que cuida, que toma conta, que se envolve, deixa-se envolver e deixa ser”. Deixar surgir o homem e suas possibilidades é a afirmação que mais se adequa ao DDA dentro das escolas e como estas lidam com o problema.

Mentes Inquietas apresenta casos reais de pessoas que sofreram diversos tipos de discriminação, na escola, em casa ou no trabalho. Casos, por exemplo, de crianças que demonstraram defasagem no aprendizado e também casos de comportamentos considerados estranhos perante familiares e amigos, causando, posteriormente, problemas emocionais. Em sua 24ª edição, o livro traz um teste que permite ao leitor ter um pré-diagnóstico sobre a síndrome e, a partir daí, procurar ajuda de um profissional qualificado. O livro está a vendas nas melhores livrarias do país a um preço médio de R$31,90.

A propósito, este ano é especial para minha família, já que meu irmão começou a estudar História. Tenho certeza que ele será um professor que cuidará, que tomará conta, que se envolverá, vai se deixar envolver e ser! Não me lembro, em nenhum momento, de algum professor ter feito isso por ele. Mas isso foi há muito tempo e tenho certeza que a realidade deve ser outra hoje. Eu espero!

Sobre a autora
Ana Beatriz Barbosa Silva é formada em Medicina pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e pós-graduada em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Especialista em Medicina do Comportamento pela Universidade de Chicago (EUA). É diretora médica do Núcleo de Medicina do Comportamento (Napades), onde coordena pesquisas clínicas ligadas ao comportamento. Membro da Academia de Ciências de Nova Iorque, participa do Programa da Organização das Nações Unidas para Desenvolvimento no Brasil (PNUD-Brasil), prestando apoio médico e psicoterapêutico no projeto de melhoria de desempenho de jovens com talentos especiais e dificuldades profissionais ou sociais.

Autora de Mentes & Manias – Entendendo Melhor o Mundo das Pessoas Sistemáticas, Obessivas e Compulsivas e Sorria, Você Está Sendo Filmado, em parceria com o redator publicitário Eduardo Mello.

* William Lara é jornalista, pós-graduado em Jornalismo Científico e editor da revista de educação Páginas Abertas - Paulus Editora. O artigo de onde foi retirado o trecho citado, pode ser lido integralmente no site Educacional.

Links Relacionados:

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As mulheres falam à humanidade - RITS